quinta-feira, 29 de maio de 2014

Duas Trajetórias Da Cana-De-Açúcar No Novo Mundo, Séculos XVI a XIX:

A produção de açúcar constituiu-se na principal e mais rentável atividade agroindustrial durante aproximadamente 400 anos de colonização do Novo Mundo. Até o século XIV a experiência agroaçucareira na Europa estava quase restrita ao Mediterrâneo. A partir da centúria seguinte verificou-se acelerado processo de expansão geográfica da cana-de-açúcar. Os portugueses detiveram um quase monopólio por três séculos, primeiro com o estabelecimento de engenhos nas ilhas do Atlântico, notadamente a Madeira, depois com a implantação e rápida disseminação no Brasil, sobretudo no litoral nordestino. No final do século XVII, iniciou-se o envolvimento direto de outras metrópoles européias na produção de açúcar, sobretudo nas ilhas do Caribe. Os milhares de engenhos espalhados pelas colônias portuguesas, inglesas, francesas, holandesas, espanholas e dinamarquesas empregaram milhões de escravos africanos, desbravaram imensas áreas agricultáveis, proporcionaram altíssimos lucros para suas metrópoles e imprimiram traços indeléveis nas sociedades coloniais que se configuraram em torno da produção açucareira.

Duas são as trajetórias da cana-de-açúcar nas Américas. A grande manufatura nordestina é paradigma de produção de açúcar para mercados externos. Sua origem e  desenvolvimento até o século XIX estiveram estreitamente vinculados ao capital mercantil. O redimensionamento da inserção dos espaços canavieiros nordestinos ao longo do Oitocentos resultou na consolidação de dependência. A produção de açúcar bruto a ser refinado no exterior reafirmou a posição de fornecedor de matéria-prima nos quadros de divisão internacional do trabalho definida pelo capitalismo industrial. Os engenhos mineiros conformam paradigma de produção de derivados da cana para o atendimento de mercados internos. Em Minas Gerais, o surgimento e evolução do setor canavieiro independeram de determinações externas. Ainda que a concorrência da grande indústria açucareira tenha, progressivamente, a partir do final do século XIX, contribuído para a gradual perda de importância da produção tradicional, foi somente com a decidida intervenção do Estado, a serviço do grande capital, a partir da década de 1930, que sua existência passou a estar comprometida. A sobrevivência de alentado número de unidades artesanais e semi-manufatureiras é expressão da existência, dentro do hegemônico modo de produção capitalista, de espaços para formas não-capitalistas.

Economia Canavieira Nordestina: Paradigma De Espaço Agroexportador:

O Nordeste brasileiro foi o primeiro grande espaço produtor de açúcar nas Américas. A ativa proteção e estímulo da Coroa portuguesa e conjuntura internacional favorável foram fatores fundamentais para o estabelecimento de engenhos de cana nos litorais da Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Paraíba e Rio Grande do Norte. A evolução do setor canavieiro nordestino dividiu-se em quatro fases: 1550 a 1650, caracterizado por grande oferta de mão-de-obra escrava, preços do açúcar em ascensão, ausência de concorrência internacional e dilatada demanda; 1660 a 1770, marcado por acentuada e prolongada crise, resultado da justaposição de múltiplos fatores: perda da exclusividade no suprimento dos mercados europeus com início da produção nas Antilhas, declínio dos preços do açúcar no mercado internacional, declínio da produção, diminuição da demanda decorrente de crise da economia mundial e concorrência das áreas mineradores por fatores de produção; 1770 a décadas iniciais do século XIX, aumento da produção em conjuntura internacional favorável, elevação dos preços do açúcar, declínio dos preços dos escravos decorrente do declínio da mineração e crise das zonas produtoras do Caribe; no transcurso do século XIX as profundas transformações da economia mundial refletiram-se na agroindústria da cana-de-açúcar nordestina, resultando em seu ajustamento à dinâmica do capitalismo industrial.

Eram três os setores básicos do processo industrial de transformação da cana-de-açúcar: moagem, cozimento e purgação. A produção de matéria-prima, preparação e acondicionamento do produto para exportação e variada gama de atividades subsidiárias e complementares (transportes, olarias, ofícios manuais e mecânicos ligados à manutenção de equipamentos e instalações, suprimento de combustível, pecuária orientada para os transportes e geração de força motriz e os setores ligados ao abastecimento em geral) perfaziam o complexo produtivo dos grandes engenhos nordestinos.

As etapas essenciais e a seqüência das operações do processo de fabricação de açúcar permaneceram praticamente inalteradas, de meados do século XVI a meados do século XIX, nas diversas áreas produtoras das Américas: cultivo; corte e preparação da cana; moagem da cana; armazenamento do caldo e condução para a cozinha; cozimento do caldo, compreendendo suas diversas fases: limpeza, evaporação, purificação, engrossamento, batedura, enchimento das fôrmas; purga, compreendendo suas múltiplas fases: furação dos pães, quebra da cara dos pães, entaipamento, barreamento, umedecimento da argila, retirada dos pães das fôrmas; quebra dos pães e separação das camadas; secagem do açúcar; pesagem, repartição e encaixotamento. Os aperfeiçoamentos de equipamentos e instrumentos, ainda que tenham resultado em substantivos ganhos de produtividade, permitido ampliação da produção, possibilitado economia de trabalho, melhorado a qualidade dos produtos e poupado combustível, não alteraram as etapas básicas.

O complexo açucareiro era composto por dois setores fundamentais, interligados e dependentes: o setor industrial, o engenho, e o agrícola, as lavouras de cana. O conjunto produtivo dos engenhos organizava-se em moldes manufatureiros. Especialização, coordenação das atividades, disciplina e cooperação eram princípios que organizavam as relações de trabalho.

O trabalho escravo respondia pelo funcionamento da manufatura do açúcar, ainda que algumas tarefas com maior grau de especialização e as funções de coordenação fossem exercidas por trabalhadores livres assalariados. Jornada de trabalho desumana, completa submissão ao ritmo da produção e relações de trabalho marcadas pela violência, eram as condições sob as quais os cativos trabalhavam nos engenhos. O recurso da instituição da escravidão, imposição do capital mercantil em realidade de fronteiras abertas, possibilitou a constituição de uma das mais eficientes formas da acumulação primitiva de capitais: o tráfico atlântico de escravos.

 A crescente necessidade de mão-de-obra para as plantations e áreas de extração mineral, a baixa expectativa de vida produtiva dos escravos africanos a requerer reposição constante e o aumento do número de nações européias envolvidas com o lucrativo comércio de seres humanos, foram os elementos centrais a estimularem o crescimento do tráfico atlântico, garantido farta e barata mão-de-obra para os engenhos. A origem africana, o sexo, a idade e capacidades subjetivas para aprendizado e desempenho dos trabalhos da manufatura, definiam a inserção dos escravos nas diversas atividades do engenho. Predominava o trabalhador do sexo masculino, embora as mulheres escravas respondessem por parte das atividades. Às crianças cabiam, sobretudo, funções de apoio.

As funções de supervisão e controle, a feitorização dos escravos e as atividades especializadas dos oficiais do açúcar eram desempenhadas, especialmente, por trabalhadores livres e brancos. A convivência de trabalhadores especializados com a massa de trabalhadores desqualificados era resultado do próprio processo produtivo do engenho, que exigia diferentes graus de formação, diferentes técnicas e diferentes trabalhadores. Contudo, a tendência à progressiva subdivisão das operações e etapas do fabrico do açúcar, com a crescente divisão do trabalho e especialização, resultou em gradual alienação do trabalhador em relação ao conjunto da produção.

A economia canavieira nordestina, baseada no escravismo e no latifúndio, direcionada pelo
Estado para atender às necessidades do capital mercantil, criou restrições ao pequeno engenho. A produção em larga escala, a requerer vultosos capitais para a montagem das unidades produtivas, estabeleceu hierarquia em que aos empreendedores de menores posses cabia a posição subsidiária de fornecimento de matéria-prima.

Subordinação, compromisso e interdependência eram os elementos a presidirem as relações entre os produtores de matéria-prima, os lavradores de cana, e os proprietários das unidades de transformação da cana-de-açúcar, os senhores de engenho. Os lavradores vinculavam-se aos engenhos pela necessidade de processamento de suas canas e os senhores precisavam das canas dos lavradores pela impossibilidade e/ou inconveniência de produzirem toda a matéria-prima. Os senhores de engenho tendiam a auferir dois tipos de renda de suas relações com os lavradores de cana. Renda da terra no caso do rendimento transferido pelos arrendatários, como remuneração do proprietário da terra, e renda industrial, no caso do pagamento do processamento, feito pelos lavradores de cana em geral.

As bases da grande produção escravista, já delineadas nos albores da economia canavieira
nordestina, sustentavam-se na decidida proteção e apoio do Estado português. Através do controle das concessões de terra, de legislação protecionista e, principalmente, de mecanismos que conferiam aos senhores de engenho posição de grande destaque na hierarquia administrativa e social da Colônia, forjou-se forte associação entre a Metrópole e seus agentes da produção. A contrapartida da baixíssima lucratividade da atividade para os produtores foi o estabelecimento de compensações na forma de prestígio e poder na sociedade e economia coloniais.

Outros espaços agroexportadores das Américas: Rio de Janeiro, São Paulo, colônias francesas
e inglesas do Caribe, Cuba:

As atividades agroaçucareiras do Rio de Janeiro e São Paulo remontam às primeiras décadas da presença portuguesa no Brasil. Entretanto, até o terceiro quartel do século XVIII, limitava-se à pequena produção para autoconsumo ou para mercados locais no caso de São Paulo e a posição de espaço exportador secundário no caso do Rio de Janeiro. Na conjuntura internacional favorável do final do Setecentos, caracterizada pela elevação dos preços do açúcar e crise das áreas produtoras do Caribe, os dois espaços canavieiros passaram a ocupar posição relevante no mercado mundial de açúcar. Se no caso paulista o surgimento, expansão e declínio da economia agroaçucareira ocorreu em período relativamente curto de tempo, de 1770 a 1850, o evolver da produção carioca foi distinto, vincado por maiores longevidade e projeção nos cenários nacional e mundial.

Os engenhos paulistas concentraram-se na região do planalto, no quadrilátero do açúcar,
notadamente em Itu e Campinas. O vale do Paraíba paulista também alcançou alguma projeção e o litoral, sobretudo o norte, especializou-se na produção de aguardente. A evolução da economia canavieira paulista é peculiar por sua fugacidade. A cultura do café surgiu e se expandiu nas terras ocupadas com a cana, inicialmente no vale do Paraíba e posteriormente no próprio quadrilátero.

Disseminados pelo território da capitania do Rio de Janeiro, os engenhos fluminenses singularizaram-se, desde o século XVII, pela produção de aguardente, utilizada como um dos gêneros do escambo por escravos na África. Ainda que com quantidades expressivas de açúcar exportadas já na primeira metade do século XVIII, foi somente na segunda metade da centúria, com a implantação e expansão da atividade na região de Campos de Goitacazes, que a produção carioca passou a rivalizar com a nordestina.

Após mais de um século e meio de atividade dos engenhos do Nordeste brasileiro, momento em que a base técnica desenvolvida pelos portugueses estava consolidada e todos os problemas relacionados à estrutura de funcionamento da atividade haviam sido equacionados – da questão da mão-de-obra à própria introdução e disseminação do açúcar na Europa, que de verdadeira especiaria passou progressivamente a produto de consumo massificado –, inicia-se a produção comercial em larga escala no Caribe. Ingleses e franceses, a partir de conhecimentos difundidos por portugueses e holandeses, montaram, em fins do século XVII, em uma miríade de ilhas, grandes unidades manufatureiras. Pouco mais de 50 anos depois, em meados do século XVIII, as colônias inglesas, francesas, holandesas, espanholas e dinamarquesas respondiam, conjuntamente, por mais de 80% do
açúcar comercializado no mercado internacional.

O último grande movimento de expansão da manufatura do açúcar nas América projetou a

economia açucareira de Cuba entre os grandes espaços canavieiros do mundo. Embora a produção cubana tenha crescido de forma permanente ao longo do século XVIII, foi somente no século XIX que a Colônia espanhola assumiu a liderança mundial na fabricação de açúcar. Na década de 1840 Cuba respondia por quase um quarto da produção mundial de açúcar. Duas décadas depois, os engenhos cubanos perfaziam 37% da produção mundial de açúcar de cana e 27% da produção total de açúcares (cana e beterraba).









As zonas agroaçucareiras orientadas para mercados externos apresentaram traços estruturais comuns. Os espaços canavieiros das colônias do Novo Mundo que produziam para o atendimento de mercados europeus estruturavam-se na monocultura, latifúndio, escravismo, na organização manufatureira do trabalho e compartilharam, até o início do século XIX, de uma mesma base técnica. O capital mercantil determinava os ritmos de desenvolvimento e a acumulação realizava-se fundamentalmente no exterior.

Fonte: http://www.mao.org.br/wp-content/uploads/godoy_01.pdf 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

TRABALHO SERVIL: Roteiro da atividade

Boa tarde Luane (e para que mais precisar),

segue em anexo o SLIDE com as orientações para a atividade da carta.

Qualquer dúvida deixa um comentário aqui, pois eu respondo o mais rápido possível.

Abraços


Retomada da Roma Antiga

Olá cambada!

Segue aqui o SLIDE da nossa última aula de história, retomando as questões que vocês tiveram mais dificuldade na prova:


  1. A crise da República romana
  2. A relação entre a guerra e a economia escravista
  3. A crise do sistema escravista
  4. A aliança entre Clóvis e a Igreja Católica


Estudem bastante estes conteúdos!! Qualquer dúvida postem seus comentários aqui neste post, que eu respondo o mais rápido possível!

Abraços!


quinta-feira, 8 de maio de 2014

IDENTIDADE LATINO-AMERICANA: Perguntas do questionário

ROTEIRO DE TRABALHO
TEMA: IDENTIDADE LATINO-AMERICANA

APRESENTAÇÃO:

A questão da identidade latino-americana passou a ganhar destaque a partir dos movimento de libertação nacional que lutavam contra a colonização europeia. Uma vez conquistada a vitória, era preciso reconstruir a identidade das elites locais que se questionavam: “quem somos nós?”. Mais recentemente, com a tentativa de constituir um mercado comum na América do sul (MERCUSUL) gerou uma série de reflexões sobre a importância de uma integração não apenas econômica, mas também cultural entre os povos de colonização portuguesa e espanhola.

COMPETÊNCIAS E HABILIDADES:

Analisar a identidade latino-americana a partir de sua relação com o passado colonial desta região do continente americano.

DESENVOLVIMENTO/CRONOGRAMA:

Proposta: Assistir ao documentário “Latinamente” (12 min), e responder o seguinte questionário:
1.        A partir da analise das respostas daquelas pessoas entrevistadas no documentário, responda qual a opinião de cada entrevistado a respeito de sua identidade latino-americana (se elas se identificam ou não enquanto “latino-americano”) e quais foram os critérios utilizados por cada um para justificar sua resposta:


a.       Sandro;
b.      Sergio;
c.       Theodoro e Marcela;
d.      Gustavo e Larissa;
e.       Juan;
f.       Joel;
g.       José;
h.      Bruno.


2.      Quais entrevistados manifestaram sua opinião a respeito do pertencimento do Brasil ao grupo dos países latino-americanos? Explique a opinião de cada um deles.

1ª Etapa: aula expositiva, em classe, para entrega dos roteiros e orientação do trabalho: 07/05;
2ª Etapa: em casa, realização da pesquisa e resolução do questionário: 07 à 12/05
3ª Etapa: entrega da atividade: 13/05.

CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO: (pontuação de 0 a 3 pontos)

·         Qualidade das respostas apresentadas às questões do questionário;
·         Originalidade (trabalhos copiados não serão pontuados);
·         Pontualidade na entrega da atividade.

REFERÊNCIAS:

LATINAMENTE (Documentário 12 min). Acesso em: 04 de maio de 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=BdoQKJiTi3A>.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Atividade (7ª série) Trabalho escravo

Boa noite galera,

como prometido, estou postando o SLIDE com a proposta da atividade que apresentei em sala de aula.

Aproveito para dar mais umas dicas:

  1. Lembrem-se que o foco da atividade é relatar o processo de substituição do trabalho escravo indígena pelo africano na América portuguesa (Brasil)
  2. Esta descrição deve ser feita através da visão etnocêntrica de um criollo peruano que está visitando o Brasil.
Segue algumas sugestões de sites para pesquisa: